terça-feira, 24 de março de 2015

Perdida

Eu não sei o que fazer.
Geralmente sou uma pessoa quieta, ouço tudo calada, e fiz assim por dois meses ouvindo uma colega feminista falando sobre "vagabundas".
Eu não quis humilha-la quando disse somente que isso me incomodava. Não quis ser superior, não quis ser melhor, mais culta.
E foi assim que ela entendeu.
Eu quis ajudar. Falei com jeitinho que isso era ruim. Ela reagiu. Ela se ofendeu. Ela fez com que eu me sentisse um lixo.
Sororidade é algo lindo de se falar, mas na prática é difícil.
Faz duas semanas que ela me ignora, enquanto eu a trato do mesmo jeito, pois o que ela me disse foi muito pior do que o que eu disse para ela, mas eu perdoei. Perdoei porque quem abriu a boca primeiro fui eu.
Eu pedi desculpas. Eu conversei. Nada resolve. Eu não sou hipócrita, como ela disse. Eu só sou trouxa. E eu estou triste e desapontada comigo mesma. Eu tentei ajudar.

domingo, 8 de março de 2015

Dia das mulheres

minha língua ficou presa no gelo
quando eu o lambi; e quando eu
toquei a chama da vela
meus dedos ficaram vermelhos e com bolhas.
este poderia ser um poema sobre
beleza selvagem e o perigo
inerente à natureza.
no entanto é sobre pessoas,
e como elas estão sempre
tocando coisas que
não deveriam tocar.
(aquela menina do jornal nunca convidou
aquele homem a tocá-la.
tudo que consigo pensar é que
eu queria que ela tivesse algo selvagem
que atravessasse sua pele.
deus deveria ter feito das garotas letais
quando fez dos homens monstros.)
(e.h.)